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20/11/2017
COLUNA DO RAFA - Quando um ACD ataca

COLUNA DO RAFA - Quando um ACD ataca

Pessoas correndo em parque são um problema em potencial para os ACDs...

Infelizmente estamos acostumados a ver notícias de PitBulls atacando pessoas, também ouvimos sobre outros cães e, geralmente, o mesmo grupo de raças acabam sendo condenadas porque atacaram um ser humano. Repito, estamos acostumados a ler e ouvir notícias como estas e, apesar de gostarmos de cães, muitas vezes esquecemos do fato minutos depois.

Deixamos de perceber que, as pessoas que possuem estas raças muitas vezes são vítimas de preconceito junto com seus cães. Eu nunca tinha chegado perto de sentir isso com um ACD, mas nesta última semana deu para ter uma pequena ideia.


Ao navegar em sites de notícias do exterior eu me deparei com a noticia de um senhor que foi atacado por um cão enquanto praticava exercícios físicos num parque da cidade de Londres.

Fiquei espantado ao saber que se tratava de um Red Heeler, o nosso Australian Cattle Dog.

O homem, chamado Jeff, estava correndo no parque enquanto o cão estava sendo treinado pelo seu adestrador e fora da guia. Num dado momento, Jeff passou pelo cão e relatou que apenas sentiu um forte impacto (algo como um míssil) atingindo o seu tornozelo. Ainda segundo o relato, a sua primeira reação foi olhar para baixo para tentar sair do alcance do cão e tudo o que ele viu foi sangue saindo de um profundo corte no tornozelo. O cão, logo após o ataque, deixou o homem de lado e recuou como se tivesse concluído a sua missão.

O relato segue num tom mais dramático, onde Jeff imagina o que teria acontecido se o ataque fosse em uma criança. A partir deste momento, ele começa com acusações contra a raça, afirmando que ACDs são cães que não podem viver em cidades e que são agressivos por natureza, uma vez que estão acostumados a trabalhar de forma agressiva com outros animais.

Ele pergunta qual o tipo de pessoa gosta de ter um cão desses em casa e, no calor de sua raiva, acusa estas mesmas pessoas de serem homens procurando provar o seu machismo e etc.

Depois de ler todo o texto eu confesso que por alguns instantes senti raiva do Jeff, mesmo compreendendo que a revolta dele tinha fundamento.

Os ferimentos causados pelo ACD foram graves e deixarão suas marcas pelo resto da vida, mas eu pensava que não era o suficiente para acusar toda uma raça.

Eu estava errado e, quando percebi isso, entendi um pouco do que devem sentir os tutores de cães de raças consideradas agressivas, uma vez que o ACD não faz parte desta lista.

Segundo a reportagem, o adestrador do cão admitiu o erro pelo fato do cão não estar na guia, mas utilizou como desculpa o fato do cão não ser agressivo e nunca ter atacado ninguém. Jeff não acreditou e disse que o cão tem problemas comportamentais.

Analisando de forma fria e com o pouco que aprendi sobre os ACDs, realmente acredito que o cão possa nunca ter atacado ninguém e que ele não tem problemas de comportamento. A questão é que o ACD é um cão de trabalho cujo a mente pode ser ativada a qualquer momento, dependendo do estímulo, e só pode ser controlada depois de muito treinamento específico e feito por profissionais.

Fora destas condições, é possível que estímulos como um homem correndo, crianças gritando, bicicletas e skate ativem os sentidos de caça/pastoreio no ACD e uma mordida possa acontecer. Pelo fato do cão ter mordido e recuado para longe de Jeff, muito provavelmente o ACD não compreendeu “o que era” aquilo se movendo. Quando isso acontece o ACD executa a mordida de controle, um comportamento que serve para o cão compreender o que está diante dele e para colocar "a coisa" no seu devido lugar. Normalmente estas mordidas deixam somente uma marca roxa, neste caso, o nível do machucado me leva a pensar que o cão realmente sentiu-se ameaçado por Jeff.

Pessoas correndo em parque são um problema em potencial para os ACDs, principalmente por conta das blusas, gorros e bonés que tendem tampar a face. Não sei se já aconteceu com vocês, mas em um passeio, o Winters estava solto da guia e caminhando tranquilamente por uma trilha, ele se deparou com uma pessoa e na hora se colocou em posição de alerta e latiu. Com o som do latido eu me voltei para ele e vi a cena: o Winters parado a quase dez metros de uma mulher, vestindo um moletom e com o gorro da blusa cobrindo todo o rosto. Naquele momento a mulher congelou e me pediu para segurar o cão. Eu pedi para ela baixar o gorro e, quando ela o fez, Winters voltou em minha direção sem que eu precisasse chamar. Ficou nítido que ele não sabia o que era aquilo e poderia mordiscar o calcanhar como uma prevenção caso ela tivesse continuado a correr.

Depois deste episódio eu comecei a me preocupar com isso, se a mulher tivesse uma reação de medo e pânico, um acidente poderia ter acontecido. Comecei a treinar mais o Winters para atender meus chamados e comandos como o PARA e FICA.

Agradeço por nunca ter passado por mais nenhuma situação como esta, mas também não marco bobeira e treino o máximo que eu posso. O mais próximo de um "teste" de verdade aconteceu quando o Winters e o Speirs avistaram um grupo de ciclistas numa trilha enquanto ambos estavam soltos. Bastou um comando para eles voltarem até nós e colocarmos suas guias, antes das bicicletas se aproximarem mais.

Este fato deixa bem claro que nunca devemos relaxar quando a questão for segurança de outras pessoas, animais e dos nossos cães. Eduquem e controlem seus animais, mas acima de tudo, nunca subestimem a força da natureza. Sempre que forem sair com seus Heelers, pensem duas vezes antes de soltar e façam somente quando tiverem a certeza de que ele não oferece risco algum.

Link para a notícia original (Em inglês)
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2914863/SAVAGED-story-Australian-cattle-dog-mauled-MoS-s-Personal-Finance-Editor-jog-terrifying-horrific-wound.html

 

Rafael Meireles é proprietário do
Winters e Speirs, Australian Cattle Dogs
filhotes da Brises, nascidos no Canil HLP.
Escreve periodicamente compartilhando suas experiências.